Immanuel WALLERSTEIN: O declínio do império americano
Os Estados Unidos estão em declínio?
Poucas pessoas hoje acreditariam nessa afirmativa. As únicas que acreditam são os falcões americanos, que defendem ferozmente políticas para reverter esse declínio. A crença de que o fim da hegemonia americana já começou não decorre da vulnerabilidade que ficou clara para todos em 11 de setembro de 2001. Na verdade, os Estados Unidos estão desvanecendo como potência mundial desde a década de 70, e a reação americana aos ataques terroristas simplesmente acelerou esse declínio. Para entender por que a chamada Pax Americana está desbotando é preciso examinar a geopolítica do século 20, particularmente as últimas três décadas do século. Esse exercício revela uma simples e inescapável conclusão: os fatores econômicos, políticos e militares que contribuíram para a hegemonia dos Estados Unidos são os mesmos que inexoravelmente produzirão seu próximo declínio.
Introdução à hegemonia
A ascensão dos Estados Unidos à hegemonia global foi um longo processo que começou de fato com a recessão mundial de 1873. Naquela época, os Estados Unidos e a Alemanha começaram a adquirir uma parcela crescente dos mercados globais, principalmente à custa da contínua recessão da economia britânica. Ambos os países tinham recentemente conquistado uma base política estável: os Estados Unidos ao encerrar com sucesso a Guerra Civil e a Alemanha alcançando a unificação e derrotando a França na Guerra Franco-Prussiana. De 1873 a 1914, os Estados Unidos e a Alemanha tornaram-se os principais produtores em certos setores chaves: aço e mais tarde automóveis nos Estados Unidos; química industrial na Alemanha.
Os livros de história registram que a Primeira Guerra Mundial irrompeu em 1914 e terminou em 1918, e que a Segunda Guerra Mundial durou de 1939 a 1945. No entanto, é mais sensato considerar as duas como uma única e contínua "guerra de 30 anos" entre os Estados Unidos e a Alemanha, com tréguas e conflitos locais espalhados entre elas. A competição para a sucessão hegemônica assumiu um teor ideológico em 1933, quando os nazistas chegaram ao poder na Alemanha e iniciaram sua empreitada para transcender totalmente o sistema global, não buscando a hegemonia dentro do sistema vigente, mas sobretudo uma forma de império global. Lembre-se do slogan nazista "ein tausendjähriges Reich" (um império de mil anos). Por sua vez, os Estados Unidos assumiram o papel de defensores do liberalismo centrista mundial —lembre-se das "quatro liberdades" do ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt (liberdade de expressão, de religião, da necessidade e do medo)— e entraram numa aliança estratégica com a União Soviética, possibilitando a derrota da Alemanha e seus aliados.
A Segunda Guerra Mundial resultou numa enorme destruição de infra-estrutura e de populações por toda a Eurásia, do oceano Atlântico ao Pacífico, e quase nenhum país ficou imune. A única grande potência industrial do mundo que saiu intacta e até muito reforçada, sob uma perspectiva econômica, foram os Estados Unidos, que agiram rapidamente para consolidar sua posição.
Mas a aspiração à hegemonia enfrentou alguns obstáculos políticos práticos. Durante a guerra, as potências aliadas concordaram com a fundação das Nações Unidas, composta basicamente pelos países que participaram da coalizão contra as potências do Eixo. A característica crítica da organização era o Conselho de Segurança, a única estrutura que poderia autorizar o uso da força. Como a Carta da ONU deu o direito de veto a cinco potências, incluindo os Estados Unidos e a União Soviética, o conselho ficou de modo geral sem efeito prático. Assim, não foi a fundação das Nações Unidas em abril de 1945 que determinou as limitações geopolíticas da segunda metade do século 20, mas, sim, o encontro em Ialta entre Roosevelt, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o líder soviético Josef Stálin, dois meses antes.
Os acordos formais de Ialta foram menos importantes do que os acordos informais tácitos, que só podem ser avaliados observando o comportamento dos Estados Unidos e da União Soviética nos anos seguintes. Quando a guerra terminou na Europa, em 8 de maio de 1945, tropas soviéticas e ocidentais (isto é, americanas, britânicas e francesas) estavam situadas em determinados locais, basicamente acompanhando uma linha no centro da Europa, que passou a ser chamada de Linha Oder-Neisse. Exceto por alguns pequenos ajustes, elas permaneceram lá. Em retrospectiva, Ialta significou um acordo entre ambos os lados de que elas poderiam ficar lá e que nenhum lado usaria a força para expulsar o outro. Esse acordo tácito também se aplicava à Ásia, como provam a ocupação do Japão pelos Estados Unidos e a divisão da Coréia. Politicamente, portanto, Ialta foi um acordo sobre o status quo em que a União Soviética controlava cerca de um terço do mundo e os Estados Unidos, o restante.
Washington também enfrentou desafios militares mais sérios. A União Soviética tinha as maiores forças terrestres do mundo, enquanto o governo americano enfrentava pressão doméstica para reduzir seu Exército, particularmente abolindo o recrutamento obrigatório. Os Estados Unidos, portanto, decidiram afirmar seu poderio militar não por meio de forças terrestres, mas por meio do monopólio das armas nucleares (e uma força aérea capaz de transportá-las). Esse monopólio logo desapareceu: em 1949, a União Soviética também tinha desenvolvido armas nucleares. Desde então, os Estados Unidos ficaram reduzidos a tentar evitar a aquisição de armas nucleares (e armas químicas e biológicas) por outras potências, uma iniciativa que no século 21 não parece ter grande sucesso.
Até 1991, os Estados Unidos e a União Soviética coexistiram no "equilíbrio do terror" da Guerra Fria. Essa situação foi testada cegamente apenas três vezes: no bloqueio de Berlim, em 1948-49, na Guerra da Coréia, em 1950-53, e na crise dos mísseis cubanos, em 1962. O resultado em cada caso foi a restauração do status quo. Além disso, veja que sempre que a União Soviética enfrentou uma crise política em seus regimes satélites —Alemanha Oriental em 1953, Hungria em 1956, Tchecoslováquia em 1968 e Polônia em 1981—, os Estados Unidos praticaram pouco mais que exercícios de propaganda, permitindo que a União Soviética agisse como melhor lhe conviesse.
É claro que essa passividade não se estendia à área econômica. Os Estados Unidos capitalizaram o ambiente da Guerra Fria para lançar iniciativas maciças de reconstrução econômica, primeiro na Europa Ocidental e depois no Japão (assim como na Coréia do Sul e em Taiwan). O raciocínio era óbvio: de que servia ter uma superioridade produtiva tão avassaladora se o resto do mundo não representasse uma demanda efetiva? Além disso, a reconstrução econômica ajudava a criar obrigações clientelistas por parte dos países que recebiam ajuda americana; esse sentido de obrigação promovia a disposição para entrar em alianças militares e, ainda mais importante, à subserviência política.
Finalmente, não se deve subestimar o componente ideológico e cultural da hegemonia americana. O período imediatamente após 1945 pode ter sido o auge histórico da popularidade da ideologia comunista. É fácil esquecer hoje as amplas votações obtidas por partidos comunistas em eleições livres em países como Bélgica, França, Itália, Tchecoslováquia e Finlândia, sem falar no apoio que os partidos comunistas obtiveram na Ásia —Vietnã, Índia, Japão— e por toda a América Latina. E isso ainda deixa de fora áreas como China, Grécia e Irã, onde as eleições livres ficaram ausentes ou foram restritas, mas onde os partidos comunistas gozavam de um apelo generalizado. Em reação, os Estados Unidos mantiveram uma maciça ofensiva ideológica anticomunista. Em retrospectiva, essa iniciativa parece amplamente bem-sucedida: Washington exibiu seu papel como líder do "mundo livre" de modo pelo menos tão eficaz quanto a União Soviética exibia sua atitude de líder do campo "progressista" e "antiimperialista".
Um, dois, muitos Vietnãs
O sucesso dos Estados Unidos como potência hegemônica no período pós-guerra criou as condições para o colapso hegemônico do país. Esse processo é captado por quatro símbolos: a Guerra do Vietnã, as revoluções de 1968, a queda do Muro de Berlim em 1989 e os atentados terroristas de setembro de 2001. Cada símbolo se ergueu sobre o anterior, culminando na situação em que os Estados Unidos se encontram hoje: uma superpotência solitária, que carece de verdadeiro poder, um líder mundial que ninguém segue e poucos respeitam e um país que flutua perigosamente em meio ao caos global que não pode controlar.
O que foi a Guerra do Vietnã? Principalmente foi o esforço do povo vietnamita para pôr fim ao domínio colonial e estabelecer seu próprio Estado. Os vietnamitas combateram os franceses, os japoneses e os americanos e no final os vietnamitas venceram —uma grande realização, na verdade. Do ponto de vista geopolítico, porém, a guerra representou a rejeição ao status quo de Ialta por populações então rotuladas como Terceiro Mundo. O Vietnã tornou-se um símbolo muito poderoso, porque Washington foi suficientemente tola para investir todo o seu poderio militar na luta e, ainda assim, os Estados Unidos perderam. É verdade que os Estados Unidos não utilizaram armas nucleares (decisão que certos grupos míopes de direita muito criticaram), mas esse uso teria destroçado os acordos de Ialta e poderia ter produzido um holocausto nuclear, resultado que os Estados Unidos simplesmente não poderiam arriscar.
Mas o Vietnã não foi simplesmente uma derrota militar ou uma maldição para o prestígio americano. A guerra aplicou um grande golpe contra a capacidade de os Estados Unidos continuarem sendo a potência econômica dominante no mundo. O conflito foi extremamente caro e praticamente esgotou as reservas de ouro dos Estados Unidos, que vinham sendo tão abundantes desde 1945. Além disso, os Estados Unidos enfrentaram esses gastos exatamente quando a Europa Ocidental e o Japão experimentavam grandes surtos econômicos. Essas condições puseram fim à predominância americana na economia global. Desde o final dos anos 60, membros dessa tríade têm sido praticamente equivalentes econômicos, cada um se saindo melhor durante alguns períodos, mas nenhum se distanciando muito dos outros.
Quando as revoluções de 1968 irromperam em todo o mundo, o apoio aos vietnamitas tornou-se um importante componente retórico. "Um, dois, muitos Vietnãs" e "Ho, Ho, Ho Chi Minh" foram entoados em muitas ruas, inclusive nos Estados Unidos. Mas a geração de 68 não condenava apenas a hegemonia americana. Condenava a conivência soviética com os Estados Unidos, condenava Ialta e usou ou adaptou a linguagem dos revolucionários culturais chineses, que dividiram o mundo em dois campos: as duas superpotências e o resto do mundo.
A denúncia da conivência soviética levou logicamente à denúncia das forças nacionais intimamente aliadas à União Soviética, o que na maioria dos casos significava os partidos comunistas tradicionais. Mas os revolucionários de 1968 também atacaram outros componentes da Velha Esquerda —os movimentos de libertação nacional no Terceiro Mundo, os movimentos social-democratas na Europa e os democratas do New Deal nos Estados Unidos, acusando-os também de conivência com o que os revolucionários chamavam genericamente de "imperialismo americano".
O ataque à conivência soviética com Washington, mais o ataque contra a Velha Esquerda, enfraqueceu ainda mais a legitimidade dos acordos de Ialta sobre os quais os Estados Unidos tinham moldado a ordem mundial. Ele também minava a posição do liberalismo centrista como a única e legítima ideologia global. As conseqüências políticas diretas das revoluções mundiais de 68 foram mínimas, mas as repercussões geopolíticas e intelectuais foram enormes e irrevogáveis. O liberalismo de centro caiu do trono que tinha ocupado desde as revoluções européias de 1848 e que havia permitido que ele incluísse tanto conservadores quanto radicais. Essas ideologias retornaram e mais uma vez representaram uma verdadeira gama de opções. Os conservadores se tornariam novamente conservadores, e os radicais, radicais. Os liberais de centro não desapareceram, mas foram reduzidos. Nesse processo, a posição ideológica oficial dos Estados Unidos —antifascista, anticomunista, anticolonialista— parecia frágil e inconvincente para uma porção cada vez maior das populações mundiais.
A superpotência impotente
O início da estagnação econômica internacional na década de 70 teve duas conseqüências importantes para o poderio americano. Primeiro, a estagnação resultou no colapso do "desenvolvimentismo", a idéia de que cada país poderia avançar economicamente se o Estado tomasse medidas adequadas, que era a principal reivindicação ideológica dos movimentos da Velha Esquerda então no poder. Um após outro, esses regimes enfrentaram distúrbios internos, o declínio dos padrões de vida, uma dívida crescente, a dependência das instituições financeiras internacionais e a erosão de sua credibilidade. O que nos anos 60 parecia ser uma navegação bem-sucedida da descolonização do Terceiro Mundo pelos Estados Unidos, minimizando as rupturas e maximizando a suave transferência de poder para regimes que eram desenvolvimentistas, mas muito pouco revolucionários, deu lugar à desintegração da ordem, ao descontentamento fervilhante e a temperamentos radicais não canalizados. Quando os Estados Unidos tentaram intervir, fracassaram. Em 1983, o presidente Ronald Reagan mandou tropas para o Líbano para restaurar a ordem. As tropas na verdade foram praticamente expulsas. Ele compensou invadindo Granada, um país sem tropas. O presidente George Bush invadiu o Panamá, outro país sem tropas. Mas, depois, interveio na Somália para restaurar a ordem, e os Estados Unidos foram na verdade tiveram que sair de modo um tanto ignominioso. Como havia pouco que o governo americano realmente pudesse fazer para inverter a tendência de declínio da hegemonia, ele preferiu simplesmente ignorar essa tendência, uma política que prevaleceu desde a retirada do Vietnã até 11 de setembro de 2001.
Enquanto isso, os verdadeiros conservadores começaram a assumir o controle de países-chave e instituições internacionais. A ofensiva neoliberal dos anos 80 foi marcada pelos regimes Thatcher e Reagan e pelo surgimento do FMI (Fundo Monetário Internacional) como um ator-chave no cenário mundial. Antes (por mais de um século), as forças conservadoras tinham tentado se retratar como liberais mais sensatas. Agora, os liberais de centro eram obrigados a argumentar que eram conservadores mais eficazes. Os programas conservadores eram claros. No plano doméstico, os conservadores tentavam implementar políticas que reduzissem o custo do trabalho, minimizando as restrições ambientais aos produtores e cortando os benefícios do bem-estar estatal. Os verdadeiros sucessos foram modestos, por isso os conservadores passaram então a atuar vigorosamente na arena internacional. As reuniões do Fórum Econômico Mundial em Davos forneceram um campo de encontro para as elites e a mídia. O FMI representava um clube para ministros das Finanças e banqueiros centrais. E os Estados Unidos pressionaram pela criação da Organização Mundial do Comércio, para promover os livres fluxos comerciais pelas fronteiras mundiais.
Enquanto os Estados Unidos não estavam olhando, a União Soviética desmoronava. Sim, Ronald Reagan tinha chamado a União Soviética de "império do mal" e usou a retórica bombástica de pedir a destruição do Muro de Berlim, mas os Estados Unidos realmente não pretendiam e certamente não foram responsáveis pela queda da União Soviética. Na verdade, a União Soviética e sua zona imperial no Leste Europeu desabaram devido à desilusão popular com a velha esquerda, em combinação com as iniciativas do líder soviético Mikhail Gorbatchov para salvar seu regime, liquidando Ialta e instituindo a liberalização interna (perestroika mais glasnost). Gorbatchov conseguiu liquidar Ialta, mas não salvar a União Soviética (embora quase o tenha conseguido, deve-se dizer).
Os Estados Unidos ficaram surpresos e atônitos com o súbito colapso, sem saber como lidar com as conseqüências. O colapso do comunismo na verdade significou o colapso do liberalismo, removendo a única justificativa ideológica por trás da hegemonia americana, uma justificativa tacitamente apoiada pelo adversário ideológico ostensivo do liberalismo. Essa perda de legitimidade levou diretamente à invasão do Kuait pelo Iraque, que o líder iraquiano Saddam Hussein jamais teria ousado se os acordos de Ialta continuassem vigentes. Em retrospectiva, as iniciativas americanas na Guerra do Golfo conseguiram uma trégua basicamente na própria linha de partida. Mas uma potência hegemônica pode se satisfazer com um empate numa guerra com um poder regional mediano? Saddam demonstrou que era possível entrar numa briga com os Estados Unidos e sair inteiro. Ainda mais que a derrota no Vietnã, o desafio ousado de Saddam comeu as entranhas da direita americana, particularmente as dos chamados falcões, o que explica o fervor de seu atual desejo de invadir o Iraque e destruir seu regime.
Entre a Guerra do Golfo e 11 de setembro de 2001, as duas principais arenas de conflito mundial foram os Bálcãs e o Oriente Médio. Os Estados Unidos exerceram importante papel diplomático em ambas as regiões. Olhando para trás, quão diferentes seriam os resultados se os Estados Unidos tivessem assumido uma posição totalmente isolacionista? Nos Bálcãs, um Estado multinacional economicamente bem-sucedido (Iugoslávia) desmoronou, basicamente em suas partes componentes. Durante dez anos, a maioria dos Estados resultantes iniciou um processo de etnificação, experimentando uma violência brutal, amplas violações de direitos humanos e guerras. A intervenção externa, em que os Estados Unidos atuaram de modo proeminente, trouxe uma trégua e pôs fim à violência mais evidente, mas essa intervenção de modo nenhum reverteu a etnificação, que hoje está consolidada e de certa forma legitimada. Esses conflitos teriam terminado de modo diferente sem o envolvimento americano? A violência poderia ter continuado por mais tempo, mas os resultados básicos provavelmente não teriam sido muito diferentes. O quadro é ainda mais grave no Oriente Médio, onde o envolvimento dos Estados Unidos foi mais profundo, e seus fracassos, mais espetaculares. Nos Bálcãs e no Oriente Médio igualmente, os Estados Unidos deixaram de exercer seu poder hegemônico com eficácia, não por falta de vontade ou de esforço, mas por falta de verdadeiro poder.
Os falcões desunidos
Então veio o 11 de setembro, o choque e a reação. Sob o fogo dos legisladores americanos, a CIA (Agência Central de Inteligência, na sigla em inglês) hoje afirma que havia advertido o governo Bush sobre possíveis ameaças. Mas, apesar do enfoque da CIA sobre a Al Qaeda e a perícia da inteligência do órgão, ele não pôde prever (e portanto evitar) a execução dos ataques terroristas. É o que afirmaria o diretor da CIA, Robert Tenet. Esse depoimento dificilmente pode tranqüilizar o governo ou o povo americanos. Seja o que for que os historiadores decidam, os atentados de 11 de setembro de 2001 representaram um grande desafio ao poderio americano. As pessoas responsáveis não representavam uma grande potência militar. Eram membros de uma força não-estatal, com alto grau de determinação, algum dinheiro, um grupo de seguidores dedicados e uma forte base em um Estado fraco. Em suma, não eram nada militarmente. No entanto, tiveram sucesso em um ataque ousado em solo americano.
George W. Bush chegou ao poder criticando muito o trabalho do governo Clinton nos assuntos externos. Bush e seus assessores não o admitiram, mas sem dúvida estavam conscientes de que o caminho de Clinton tinha sido o de todo presidente americano desde Gerald Ford, incluindo os de Ronald Reagan e George Bush pai. E tinha sido até o caminho do atual governo Bush antes do 11 de setembro. Basta olhar como Bush tratou o caso da derrubada do avião americano na China em abril de 2001 para ver que prudência era o nome do jogo.
Depois dos atentados terroristas, Bush mudou de rumo, declarando guerra ao terrorismo, garantindo ao povo americano que "o resultado é certo" e informando ao mundo que "ou estão do nosso lado ou estão contra nós". Há muito frustrados até mesmo pelos mais conservadores governos americanos, os falcões finalmente passaram a dominar a política americana. Sua posição é clara: os Estados Unidos detêm um poderio militar avassalador e, embora inúmeros líderes estrangeiros considerem insensato Washington aplicar sua força militar, esses mesmos líderes não podem fazer e não farão qualquer coisa se os Estados Unidos simplesmente impuserem sua vontade ao resto. Os falcões acreditam que os Estados Unidos devem agir como uma potência imperial por dois motivos: primeiro, os Estados Unidos podem fazer isso; e, segundo, se Washington não exercer sua força, os Estados Unidos se tornarão cada vez mais marginalizados.
Hoje essa posição dos falcões tem três expressões: o ataque militar no Afeganistão, o apoio de fato à tentativa israelense de liquidar a Autoridade Palestina e a invasão do Iraque, que estaria em fase de preparativos militares. Menos de um ano depois dos atentados terroristas de setembro de 2001, talvez seja cedo demais para avaliar qual será o resultado dessas estratégias. Até agora, esses esquemas levaram à derrubada dos taliban no Afeganistão (sem o desmantelamento completo da Al Qaeda ou a captura de sua liderança); enorme destruição na Palestina (sem tornar "irrelevante" o líder palestino Iasser Arafat, como queria o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon); e a forte oposição dos aliados dos Estados Unidos na Europa e no Oriente Médio aos planos de invasão do Iraque.
A leitura dos fatos recentes pelos falcões enfatiza que a oposição às ações americanas, embora séria, continua principalmente verbal. Nem a Europa Ocidental nem a Rússia, a China ou a Arábia Saudita parecem dispostas a romper seriamente os laços com os Estados Unidos. Em outras palavras, os falcões acreditam que Washington realmente conseguiu se safar. Os falcões supõem que um resultado semelhante ocorrerá quando os militares americanos realmente invadirem o Iraque e, depois, quando os Estados Unidos exercerem sua autoridade em outras partes do mundo, seja no Irã, na Coréia do Norte, na Colômbia ou talvez na Indonésia. Ironicamente, a leitura dos falcões tornou-se de modo geral a leitura da esquerda internacional, que vem gritando contra as políticas americanas principalmente por temer que as probabilidades de sucesso dos EUA sejam altas.
Mas as interpretações dos falcões estão erradas e apenas contribuíram para o declínio dos EUA, transformando uma descida gradual numa queda muito mais rápida e turbulenta. Especificamente, as abordagens dos falcões vão fracassar por motivos militares, econômicos e ideológicos.
Sem dúvida, os militares continuam sendo a carta mais forte dos EUA; na verdade, a única carta. Hoje os Estados Unidos possuem o mais formidável aparato militar do mundo. E, a se acreditar nas alegações de novas e incomparáveis tecnologias militares, a vantagem americana sobre o resto do mundo é consideravelmente maior hoje do que uma década atrás. Mas então isso significa que os EUA podem invadir o Iraque, conquistá-lo rapidamente e instalar um regime amigo e estável? É improvável. Tenha-se em mente que, das três guerras sérias que os EUA lutaram desde 1945 (Coréia, Vietnã e Golfo), uma terminou em derrota e duas em retirada após o que poderia ser chamado de "empate" —não é exatamente um registro glorioso.
O Exército de Saddam Hussein não é o dos taliban e o controle interno de seus militares é muito mais coeso. Uma invasão americana necessariamente envolveria uma importante força em terra, que teria de abrir caminho até Bagdá e provavelmente sofreria baixas significativas. Essa força também precisaria de bases de onde partiria para as lutas e a Arábia Saudita deixou claro que não ajudará nesse sentido. O Kuait ou a Turquia ajudarão? Talvez, se Washington usar todas as suas fichas. Enquanto isso, pode-se esperar que Saddam utilize todas as armas à sua disposição e é exatamente o que inquieta o governo americano: que essas armas possam ser muito malignas. Os EUA podem torcer os braços dos regimes da região, mas o sentimento popular claramente vê todo o negócio como o reflexo de um profundo viés antiárabe nos EUA. Esse conflito pode ser vencido? O Estado-Maior britânico aparentemente já informou ao primeiro-ministro Tony Blair que não acredita nisso.
E sempre há a questão das "segundas frentes". Depois da Guerra do Golfo, as Forças Armadas americanas tentaram se preparar para a possibilidade de duas guerras regionais simultâneas. Depois de algum tempo, o Pentágono abandonou silenciosamente a idéia, por ser impraticável e dispendiosa. Mas quem pode ter certeza de que nenhum potencial inimigo atacará quando os EUA estiverem atolados no Iraque?
Considere também a questão da tolerância popular americana às não-vitórias. Os americanos pairam entre um fervor patriótico que apóia todos os presidentes em tempo de guerra e um profundo impulso isolacionista. Desde 1945, o patriotismo se chocou com um muro sempre que as baixas aumentaram. Por que a reação seria diferente hoje? E, mesmo que os falcões (quase todos civis) se sintam impermeáveis à opinião pública, os generais americanos, queimados pelo Vietnã, não se sentem.
E a frente econômica? Nos anos 80, inúmeros analistas americanos ficaram histéricos quanto ao milagre econômico japonês. Eles se acalmaram nos anos 90, diante das conhecidas dificuldades financeiras do Japão. Mas, depois de exagerar nas declarações sobre como o Japão estava avançando rapidamente, as autoridades americanas hoje parecem complacentes, confiantes de que o Japão está muito atrás. Hoje em dia, Washington parece mais inclinada a mostrar aos formuladores de políticas japoneses o que eles estão fazendo errado.
Esse triunfalismo dificilmente parece garantido. Considere a seguinte reportagem do "New York Times" de 20 de abril passado: "Um laboratório japonês construiu o computador mais rápido do mundo, uma máquina tão poderosa que se equipara ao poder de processamento dos 20 mais rápidos computadores americanos juntos e supera de longe o líder anterior, uma máquina construída pela IBM. A conquista [...] é a evidência de que a corrida tecnológica, que a maioria dos engenheiros americanos pensava estar vencendo facilmente, está longe de terminar". A análise continua, comentando que há "prioridades científicas e tecnológicas contrastantes" nos dois países. A máquina japonesa foi construída para analisar mudanças climáticas, mas as máquinas americanas são desenhadas para simular armas. Esse contraste personifica a história mais antiga na história das potências hegemônicas. O poder dominante se concentra nos militares (em seu detrimento); o candidato a sucessor se concentra na economia. O último sempre compensou amplamente. Foi o que aconteceu com os Estados Unidos. Por que não deveria acontecer também com o Japão, talvez em aliança com a China?
Finalmente, há a esfera ideológica. Hoje a economia americana parece relativamente fraca, ainda mais considerando-se as exorbitantes despesas militares associadas às estratégias dos falcões. Além disso, Washington continua politicamente isolada; virtualmente ninguém (exceto Israel) acha que a posição do falcão faz sentido ou é digna de incentivo. Outros países temem ou não estão dispostos a enfrentar Washington diretamente, mas até sua indecisão está prejudicando os Estados Unidos.
Mas a reação americana representa pouco mais que uma arrogante torcida de braço. A arrogância tem suas próprias negativas. Usar as fichas significa deixar menos fichas para a próxima vez, e a aquiescência a contragosto provoca um ressentimento crescente. Durante os últimos 200 anos, os EUA conquistaram uma quantidade considerável de crédito ideológico. Mas, hoje em dia, os EUA estão gastando esse crédito ainda mais depressa do que gastaram seus excedentes em ouro nos anos 60.
Os EUA enfrentam duas possibilidades nos próximos dez anos: podem seguir o caminho dos falcões, com conseqüências negativas para todos, mas especialmente para o país. Ou podem perceber que as negativas são grandes demais. Simon Tisdall, do "Guardian", argumentou recentemente que, mesmo desconsiderando a opinião pública internacional, "os Estados Unidos não são capazes de ter sucesso numa guerra no Iraque sozinhos sem incorrer em enormes danos, principalmente em termos de seus interesses econômicos e seu abastecimento energético. Bush está reduzido a falar duro e parecer ineficaz". E, se os EUA invadirem o Iraque e forem obrigados a recuar, ele parecerá ainda mais ineficaz.
As opções do presidente Bush parecem extremamente limitadas e não há dúvida de que os EUA continuarão a declinar como força decisiva nos assuntos mundiais na próxima década. A verdadeira questão não é se a hegemonia americana está decaindo, mas se os EUA podem encontrar uma maneira de descer graciosamente, com danos mínimos para o mundo e para si mesmos.
Immanuel Wallerstein
(Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves, revista polo autor. Este artigo foi publicado n’A Folha de São Paulo em 21.07.2002)